| COLAB | #2 Sobre metas de ano novo, exposição e Cuba

2017: um dos melhores anos da minha vida. Viajei para lugares incríveis, planejei e vivi o casamento dos meus sonhos.  Mas o final do ano chegou e, em dezembro, época em que ritualmente faço minhas metas para o próximo ano, me vi sem grandes expectativas. Eu precisava de um plano, de um objetivo grande, algo em que eu pudesse mergulhar de cabeça – e a verdade é que a minha vida estava um tanto quanto na zona de conforto.

Me vi perdida, colocando planos na agenda apenas para ter objetivos a serem atingidos, e não porque eram coisas que eu realmente queria e gostaria de vivenciar

Em um intervalo de apenas duas semanas, cogitei inúmeras possibilidades: que tal fazer um curso de especialização… ou seria melhor um mestrado? Quem sabe um MBA? Me vi perdida, colocando planos na agenda apenas para ter objetivos a serem atingidos, e não porque eram coisas que eu realmente queria e gostaria de vivenciar.

A Caroline, autora desse blog, então sugeriu que, em vez de usar meu precioso tempo com coisas que não faziam sentido algum, eu apenas lesse bons livros, ou me dedicasse a aprender algo que fosse importante para o meu future me – a pessoa que eu gostaria de me tornar no futuro.

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Photo by Eric Rothermel on Unsplash

Isso porque eu, que passei a infância e adolescência gostando muito de ler, entrei na fase rede-social e, junto com grande parte do meu tempo, perdi também o hábito da leitura. Há quase 5 anos eu não lia sequer um livro! Eu tentava, me cansava e dizia para mim mesma que eu era apenas mais uma jovem millenial que não conseguia mais ler longos textos. Achei que esse era um bom plano, e então coloquei na minha lista de metas para 2018: ler ao menos um livro por mês.

Não eram grandes planos acadêmicos, mas eram planos importantes para mim, para quem eu gostaria de ser no futuro

Além disso, resolvi também encarar algo que estava encapsulado há muito tempo em uma prisão emocional do meu cérebro: ser fluente em inglês. Acho que a primeira vez que eu entrei em um curso de inglês eu deveria ter uns 10 anos, e depois aos 14, e depois aos 19, e depois aos 22 e depois aos 25, 28, 29…. e eu simplesmente não conseguia falar. Chegava a hora de me comunicar com alguém e eu sempre engasgava, ficava nervosa e, com o passar do tempo, essa foi outra coisa que eu coloquei na minha cabeça: Aline não sabe falar inglês, fica nervosa quando tenta, então melhor deixar pra lá.

Enfim, não eram grandes planos acadêmicos, mas eram planos importantes para mim, para quem eu gostaria de ser no futuro. Minhas duas metas de 2018 estavam traçadas: ler ao menos 12 livrinhos e voltar a estudar inglês.

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Photo by Christin Hume on Unsplash

Entrei no curso já em janeiro, com um nervosismo que não me fez dormir por uma semana porque o professor me colocou na metade de um módulo avançado. O que? Eu, no módulo avançado? Admirada, recebi a colocação e iniciei um intensivo. E passei a me sentir bem – cada vez melhor. Após dois meses de aulas todos os dias, eu já havia acabado o curso avançado. Sim, eu já podia me comunicar – mas será que eu conseguia?

Seriam 15 dias de apenas descanso na praia, mojitos, moros e cristianos, mas acabou sendo a viagem mais life-changing da minha vida

Então, no final de fevereiro embarquei para as minhas férias em Cuba. Seriam 15 dias de apenas descanso na praia, mojitos, moros e cristianos, mas acabou sendo a viagem mais life-changing da minha vida. Eu sentia que, pela primeira vez, eu poderia tentar me comunicar de verdade com alguém em outra língua.

Já embalada pelo mambo e pelo rum, certa noite decidi fazer amigos. Iniciei uma conversa com um rapaz, norueguês, que me contou estar ali com um grupo de amigos: um filipino e cinco cubanos. A noite, que acabaria cedo, foi até altas horas da manhã. Dessa vez eu passei dos modestos pedidos de comida e bebida em restaurantes para papos aprofundadíssimos – e não só em inglês! O espanhol que eu havia estudado por longos anos da minha vida também voltou. Como mágica, eu estava conseguindo utilizar.

A noite acabou com um convite para um jantar, que aconteceu dois dias depois, na nossa última noite em Havana. Estávamos nós, eu e meu marido, em Havana Vieja, sendo recebidos com muito carinho pelos nossos novos amigos internacionais, em uma noite cheia de amor, troca de conhecimentos e bananinhas fritas.

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Entretanto, usei ali atrás a palavra mágica. E será que foi mágica mesmo o que aconteceu? Não, não foi o gênio da lâmpada que apareceu para mim e me deu o dom das línguas. O que aconteceu foi que eu tive coragem de voltar a um objetivo que já tinha sido deixado de lado por medo do fracasso, e foi aí que eu fortaleci a minha autoconfiança a ponto de quebrar as barreiras do nervosismo e da ansiedade.

Assim como essas barreiras me impediram por muito tempo, eu sei que elas atrapalham muita gente, seja na hora de falar outras línguas, falar em público ou até publicar um blog… às vezes damos tanto valor ao que pensamos e ao que outras pessoas pensarão da gente que isso chega a sufocar o nosso conhecimento, gerando autossabotagem e frustração. Que atire a primeira pedra quem nunca teve de apresentar um trabalho na escola e, mesmo sabendo toda a matéria, deparou-se com o famoso branco.

Às vezes damos tanto valor ao que pensamos e ao que outras pessoas pensarão da gente que isso chega a sufocar o nosso conhecimento, gerando autossabotagem e frustração

Se você se identifica com isso que estou falando, provavelmente já pensou que, em momentos em que você estava falando, alguém deu uma risadinha, um bocejo ou fez uma careta – e que isso era dirigido a você. Mas será mesmo que essas reações tinham a ver com o que você estava falando ou eram completamente alheias? Será que alguém mais notou o seu erro de pronúncia além de você mesmo? Será que seu texto realmente é um nota 4?*

Escrevo tudo isso ainda em tratamento, tentando abstrair esse tribunal que imagino estar sempre me julgando. São esses pequenos passos que fazem com que eu me sinta mais forte – e isso é sempre recompensador. É o típico caso que funciona apenas sob tratamento de choque: você precisa se expor.

Então vamos deixar de ser inseguros juntos, companheiro leitor! Vamos ser protagonistas de nossas histórias! Vamos falar inglês ou portunhol! Vamos fazer um canal do youtube ou apenas mostrar a nossa cara no stories do Instagram! Vamos conseguir falar com o chefe ou com uma plateia sem gaguejar, vamos dar a cara para bater porque precisamos disso, dessa exposição que vai nos fazer crescer na vida, na carreira ou, no mínimo, vai nos levar até uma sala cheia de pessoas de vários lugares do mundo que dividem mojitos.

Sobre a outra meta, de ler os 12 livros durante 2018, bem… redescobri que bons livros são viciantes e ajudam a retomar o hábito da leitura facinho facinho. Estamos em março e já estou lendo o 19º do ano.

*Quando falei para o meu psicólogo que havia escrito um texto para o blog da Caroline, mas achava que estava muito ruim e não iria mandar pra ela, ele perguntou: que nota você daria? Eu disse: 4. Então, caro tribunal, se vocês chegaram até aqui, por favor, digam o que acharam de todo esse desabafo, se compartilham dos mesmos dramas e inseguranças que eu e, se desejarem, deixem até uma notinha. 😉


Aline Machado, ou Nina, para os íntimos, é jornalista, viajante (quase) profissional, criadora de bolos deliciosos e minha prima-amiga-colega favorita.

6 pensamentos

  1. Escrever sempre alivia ao mesmo tempo em que dá medo, mas o importante é seguir. Bem clichê assim! Tenho acompanhado o blog e ler todas essas coisas que “paracem óbvias” tem sido um aprendizado diário.
    Nota 10 para o blog e para o texto!

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  2. Não te maltrata, eu moro fora do Brasil há 3 anos e ainda gaguejo às vezes. Nesse momento entra a máxima da linguística: o importante é se comunicar! Hehehe beijos pra vcs duas

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