#29 O que aprendi ficando um mês sem compras | Desafio ‘2018, o ano do sem’

Oba! Fim de mais uma etapa do nosso desafio ‘2018, ano do sem’: fevereiro sem compras! Se você está chegando aqui agora e não sabe do que eu estou falando, sugiro a leitura deste post, onde eu explico os motivos que me levaram a encarar essa pequena loucura que é eleger, a cada mês, um hábito ou coisa que eu desejo viver sem, de modo a ficar cada vez mais próxima da vida simples e intencional que eu pretendo cultivar ao longo deste ano.

Sei que vai soar um tanto quanto contraditório – afinal, não é segredo para ninguém que eu falhei -, mas a verdade é que ficar um mês sem compras não foi exatamente um exercício difícil. O que também não quer dizer que tenha sido fácil – afinal, proibições nunca o são. Eu só acho que, tendo em conta a maneira que eu me comportava em outras épocas, poderia ter sido muito mais sofrido.

Como eu já contei pra vocês no início do desafio, quando o assunto são compras, meu passado me condena. Hoje eu tenho arrepios só de lembrar, mas não foi uma nem duas vezes que eu fui viajar com uma mala e voltei para casa com duas, ambas entupidas de roupas e tranqueiras que passavam o resto do ano atrolhando o meu armário e a fatura do meu cartão de crédito.

E embora eu agora me considere curada desta febre consumista, vez ou outra me pego dando umas deslizadas que poderiam facilmente ser evitadas. E foi visando eliminar – ou pelo menos amenizar – essas recaídas que eu me propus a encarar este mês sem compras. E eu acho que, mesmo tendo falhado, consegui atingir o meu objetivo com sucesso.

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Photo by Lauren Roberts on Unsplash

Então, vamos ao que interessa? Se vocês estão curiosos pra saber o que eu aprendi ao longo deste um mês sem compras, agora eu conto:

1 – Eu comprava muito mais por hábito do que por necessidade: diferente de atividades que não fazem parte da nossa rotina, os hábitos são aqueles comportamentos que assumimos sem nem mesmo dar-nos conta do que estamos fazendo. Como explica Charles Duhigg no livro O Poder do Hábito, o nosso cérebro está o tempo todo procurando maneiras de poupar esforço; assim, quando associamos determinado estímulo – ir ao shopping, por exemplo – a uma rotina – comprar alguma coisa – que leve a uma recompensa – sentir-se bem por ter comprado -, nosso cérebro para de participar da tomada de decisões e entra em uma espécie de modo de descanso. É justamente esse trio formado por estímulos, rotinas e recompensas – o chamado loop do hábito – que está na base de nossas atitudes viciadas. Neste caso, fazer compras. Salvo raras exceções, eu não comprava pela necessidade do objeto em si, mas tão somente porque estava cercada dos gatilhos que mandavam o meu cérebro dar uma voltinha enquanto eu passava o meu cartão de crédito.

2 – A satisfação que eu sentia ao comprar era muito passageira: quanto mais eu comprava, mais eu queria comprar. As minhas supostas necessidades nunca se esgotavam; sempre faltava algo, e esse algo me fazia comprar de novo, e de novo, e de novo. Era o loop do hábito dando as caras mais uma vez: na medida em que o que eu buscava não era satisfazer uma necessidade material e sim me sentir de determinada forma, comprar não era a solução. Não era como se eu estivesse precisando de verdade daquela blusinha – o que eu queria era a satisfação por estar comprando ela. Assim, pouco importava se aquela nova peça de roupa agora estava no meu armário, porque o ponto não era esse! Na medida em que a minha motivação para comprar estava na sensação que essa atitude me proporcionaria – e não no objeto em si -, estava preparado o terreno pra que eu fizesse uma compra atrás da outra sem a mínima necessidade.

3 – Eu tinha muito mais dinheiro do que eu pensava: não, eu não fui sorteada na loteria nem ganhei um aumento durante o desafio. Acontece que, da mesma forma que um período sem redes sociais me ensinou que eu tinha muito mais tempo livre do que eu imaginava, uma temporada sem compras me fez perceber o quanto do meu dinheiro era colocado em coisas completamente desnecessárias. E isso foi realmente surpreendente, porque eu não me enxergava como uma pessoa descontrolada no quesito financeiro – eu sempre tive o costume de controlar os meus gastos mensais, inclusive; o grande problema era que eu não entendia que aquelas comprinhas aparentemente inofensivas representavam, sim, uma grande parcela do meu orçamento. Elas tinham um impacto considerável.

4 – Comprar é somente uma entre diversas alternativas: essa é uma daquelas lições que chega a ser vergonhoso compartilhar, de tão óbvia que é. Antes, se eu precisava de alguma coisa, meu comportamento padrão era comprar aquilo – o que não é exatamente errado, afinal, estamos tratando de uma verdadeira necessidade. Mas não é só porque você precisa de uma coisa que está tudo bem sair comprando. Existem outras formas de ter acesso a determinados objetos. Você pode pedir emprestado de algum amigo ou vizinho; você pode trocar com alguém por algo que não usa mais; você pode alugar; ou, melhor ainda: você pode encontrar um novo uso, mais adequado às suas necessidades, para algo que você já tem.

5 – Além do meu dinheiro, eu também desperdiçava o meu tempo: por último, mas não menos importante. A partir do momento que eu consegui entender que a minha relação com as compras era uma resposta que eu dava quando submetida a determinados estímulos, comecei a evitar lugares e situações que representassem gatilhos pra que eu agisse dessa forma. E isso foi mais uma das grandes revelações deste mês sem compras. A quantidade de horas que eu perdia em shoppings e e-commerces era assustadora. Parando de comprar eu retomei não só o meu dinheiro, mas também o meu tempo.

Em resumo, passado este fevereiro sem compras, cheguei à conclusão de que as raízes da minha relação tortuosa com o consumo eram um pouco mais profundas do que eu imaginava. Perceber que se trata de um hábito – e entender o que isso significa – foi fundamental. E embora eu considere que atingi o meu objetivo com este desafio, agora sei que esse esforço representa apenas mais um passo na minha rumo a uma vida mais consciente e intencional. Esse é só o início da caminhada.

No próximo post, apresento o terceiro desafio do nosso 2018, ano do sem: março sem sacolinhas e copos plásticos.

10 pensamentos

  1. Que demais essa ideia de se propor a cada mês passar por uma “privação”. Essa questão de ficar sem fazer compras é mais difícil do que parece, principalmente pra quem tinha o hábito de comprar com frequência. Falei sobre isso no meu blog em uma postagem sobre o minimalismo e o desapego. Sucesso pra você!

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    1. Oie! Realmente, pra quem tem o hábito/vício de comprar com frequência, geralmente sem refletir, é bastante difícil. Por isso que eu decidi começar aos poucos, um mês de cada vez, pois acho que enfrentando desafios menores a gente se sente mais encorajado a abraçar a ideia! Adorei o nome do seu blog! =)

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  2. Me identifiquei com seu texto. Depois de várias vezes me propondo a ficar “1 ano sem”, comecei a traçar metas menores e está se tornando natural. Percebi que não só o prazer momentâneo me fazia comprar. Eu comprava pq achava bonito, e queria levar pra casa. Aí comprava e ficava lá encostado pq na verdade eu estava sempre focada no que não tinha. “Ah, uma bolsa verde turquesa! Não tenho assim ainda…” e comprava. Sendo que agora foco no que eu tenho e no que eu preciso. “Uma bolsa verde? Não preciso disso. Já tenho muitas outras que posso usar quando usaria essa, e ainda mais até!”. Mudei o pensamento e agora é natural não comprar. Não passo vontade.

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    1. Oi! Exatamente, eu também tenho notado essa mudança no meu pensamento. E de fato, encarar desafios menores – um mês, uma semana… – é muito mais fácil e encorajador, pq na medida em que o tempo vai passando, vamos notando o quanto somos capazes de superá-los!

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